domingo, 2 de maio de 2010

O que é Ser Humano - Ubiratan D'Ambrósio

Ao longo da sua curta história, o homem tem procurado explicações sobre quem é -- e tem se acreditado o favorito de algum deus – sobre o que é -- e tem se acreditado um sistema complexo de músculos, ossos, nervos e humores –- sobre como é -- e tem se acreditado uma anatomia com vontade -- e sobretudo quanto pode -- tem se acreditado sem limitações à sua vontade e ambição. Na procura de entender quem é, o que é, como é, o homem construi história, religião, ciência, arte. E na explicação do quanto pode, concebe o poder. Essas explicações determinam a construção de modos de comportamento e de modos de conhecimento.

Temos avançado muito no conhecimento do ser humano. Mas a grande angústia existencial, que resulta de não se encontrar uma resposta satisfatória à questão maior "por quê sou?", dá origem à contradições na qualidade de ser humano.

As violações da dignidade humana, que chegam até a eliminação de indivíduos, mostram o risco de inviabilidade de uma sociedade eqüitativa e possibilitam uma agressividade desmesurada contra a natureza. Distorções na maneira como o homem tem se acreditado tem induzido a poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância, indiferença. Mas jamais se tentou encarar o busílis da questão: a própria questão do conhecimento, convenientemente fragmentado em disciplinas para justificar -- desencorajando crítica -- nossas ações em cada setor e procurar revestir aquilo no naquilo que se acredita, do caráter de verdade absoluta.

O ponto de partida é entender o fenômeno vida, como algo inconcluso e complexo, em permanente transformação, sujeito a uma dinâmica que não conhecemos. Viremos a conhecer?

Esse fenômeno tem incertezas e contradições intrínsecas. O melhor que conseguimos fazer é identificar três elementos fundamentais para que a vida se realize, e que represento no que chamo TRIÂNGULO DA VIDA:

INDIVÍDUO

OUTRO(s)/SOCIEDADE

NATUREZA

[subentende-se indivíduo e outro como sendo da mesma espécie e natureza como a totalidade planetária e cósmica]

Os três componentes, o INDIVÍDUO, o OUTRO, e a NATUREZA são mutuamente essenciais. A vida se realiza somente nessa conjugação. NENHUM DOS TRÊS EXISTE SEM OS DEMAIS.

O indivíduo é um organismo vivo, complexo na sua definição e no funcionamento de seu CORPO, que age em coordenação com o CÉREBRO, órgão responsável pela organização e execução de suas ações. UM CORPO e UM CÉREBRO mutuamente essenciais, UMA SÓ ENTIDADE.

Humberto Maturana e Francisco Varela introduziram, numa obra já considerada clássica, o conceito de autopoiese, para descrever a maneira como as diferentes partes de um organismo interagem para manter a vida [1]. Na verdade, a interação não pode ser no organismo, mas na tríade indivíduo/outro/natureza. Não há autopoiese que mantenha vivo um indivíduo.

Na busca de sobrevivência, o indivíduo se sujeita a comportamentos básicos:

reconhece o outro,

aprende,

é ensinado,

adapta-se

e cruza

com os objetivos de SOBREVIVER e dar CONTINUIDADE À ESPÉCIE.

Uma questão maior, ainda não respondida, é "QUAIS AS FORÇAS QUE LEVAM OS SERES VIVOS A ESSES COMPORTAMENTOS?".

O homem é um organismo vivo, complexo na sua definição e no seu funcionamento, sujeito aos mesmos comportamentos básicos de todo ser vivo. Busca sobrevivência.

Mas diferentemente dos demais seres vivos e mesmo das espécies mais próximas, busca algo além da sobrevivência. Algumas vezes até rejeita sua sobrevivência.

Onde se situa essa diferença? Elas se manifestam na criação de INTERMEDIAÇÕES criadas pelo homem para a resolução do triângulo da vida:

INDIVÍDUO instrumentos/tecnologia NATUREZA

INDIVÍDUO comunicação/emoções OUTRO(s)/SOCIEDADE

OUTRO(s)/SOCIEDADE produção/trabalho NATUREZA

Os acertos e equívocos na produção dessas intermediações resultam do encontro do COMPORTAMENTO e do CONHECIMENTO, que é o que chamamos CONSCIÊNCIA.

O comportamento humano resulta de duas grandes pulsões [2]:

a sobrevivência, do indivíduo e da espécie que, como em toda espécie viva, que se situa na dimensão do momento;
a transcendência do momento que, diferentemente das demais espécies, se situa numa outra dimensão, levando o homem a indagar "por quê?", "como?", "onde?", "quando?".

No encontro com o outro, que também está em busca de sobrevivência e de transcendência, desenvolve-se a COMUNICAÇÃO.

Na resposta à pulsão de sobrevivência o homem define suas relações com a natureza e com o outro e desenvolve as intermediações já mencionadas acima.

Na resposta à pulsão de transcendência incursiona no passado e no futuro, desenvolvendo mitos e artes, religiões e ciências.

Sobrevivência e transcendência guardam uma relação simbiótica e distinguem o ser humano das demais espécies. Dão origem a conhecimento e definem o comportamento.

O comportamento de cada indivíduo é aceito pelos seus próximos quando subordinados a parâmetros, que denominamos valores e que determinam os acertos e equívocos na produção e utilização das intermediações criadas pelo homem para sua sobrevivência e transcendência.

Uma excursão pela história revela que novos meios de sobrevivência e de transcendência fazem com que valores mudem. Mas alguns valores permanecem:

respeito pelo outro,

solidariedade com o outro,

cooperação com o outro.

Esses valores constituem uma ética maior, sem a qual a qualidade de ser humano se dilui.

Mas por que a humanidade caminha em direção contrária a essa ética, sem a qual a espécie humana não pode sobreviver?

Essa questão maior tem sido a motivação dos grandes modelos filosóficos, religiosos e científicos.

Os modelos filosóficos, religiosos, científicos propões "verdades" que têm sido aceita como absolutas e que constituem sistemas de valores que guiam o comportamento humano.

A prioridade passa então a ser a defesa do sistema de valores. A questão fundamental, que é a busca de sobrevivência associada à transcendência, passa a ser subordinada à defesa do sistema de valores [fundamentalismos].

Nada melhor para denunciar essa distorção que a frase antológica de Sri Aurobindo (1872-1950):

"Para a filosofia ocidental uma crença intelectual fixa é a parte mais importante de um culto, é a essência de seu significado e o que o distingue dos outros. Assim são que as crenças formuladas fazem verdadeira ou falsa uma religião [uma teoria, uma filosofia, uma ciência], de acordo com sua concordância ou não com o credo de seus críticos."

O sistema de valores, bem como a ciência e as religiões, são saberes concluídos.

O conhecimento disciplinar tem priorizado a defesa de saberes concluídos, inibindo a criação de novos saberes e determinando um comportamento social a eles subordinado [3].

A transdisciplinaridade rejeita a arrogância do saber concluído e das certezas convencionadas e propõe a humildade da busca permanente.

Como já foi dito acima, o comportamente humano responde às pulsões de sobrevivência e de transcendência, que estão intimamente ligados. Vai além de comportamento orientado pelo cérebro. Existe algo mais. O pensar, que tem intrigado os filósofos desde a antigüidade, e a consciência, igualmente intrigante. Onde se situam mente e consciência? No cérebro, que vem sendo tão bem estudado pelos neurologistas? Ou no que se costuma chamar inteligência, hoje bem estudada âmbito de uma disciplina que se denomina inteligência artificial? E o que é inteligência? [4]

As teorias vão surgindo, vão sendo aceitas ou recusadas, algumas marginalizadas e outras refutadas. Algumas idéias, que são aceitas por se desviarem pouco das anteriores, se tornam as novas explicações e encontram seu espaço nas universidades [5]. Outras idéias se desviam dos chamados paradigmas e criam novos paradigmas [6]. Mas geralmente repousam sobre "ombros de gigante" e por isso encontram um lugar cômodo na universidade. Ambos os modelos de evolução/revolução estão apoiados numa mesmice evidente. Apoiam-se no mesmo modelo de raciocínio lógico e analítico, na mesma linguagem, nos mesmos modelos de representação, na mesma cosmovisão, nos mesmos critérios de reconhecimento.

Foi no século XVII que, com Galileo Galilei (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650), foram criadas as bases conceituais sobre as quais Isaac Newton (1642-1726) produziu seu trabalho monumental que explica certos fenômenos naturais e que foi rapidamente ampliado para explicar comportamento humano. Esse sistema de explicações repousa sobre uma matemática muito elaborada, principalmente o Cálculo Diferencial, que se estabeleceu como a linguagem por excelência do paradigma científico proposto por Newton. Hoje, há uma concordância que os métodos científicos e matemáticos são insuficientes para explicar o comportamento humano. A ponto de o matemático Keith Devlin propor uma "matemática mole" [soft mathematics]. Devlin "duvida que haverá muito, talvez nenhum, alcance para a aplicabilidade da matemática que existe hoje" [7]. A obsolescência da matemática é evidente em vista de novas possibilidades de observação e novos instrumentos intelectuais de análise.

Mas será que nessa busca de um conhecimento mais amplo é necessário rejeitar outros modos de pensar e outras visões da natureza do mundo mental, físico e social que são parte de "outras" maneiras de formular e organizar conhecimento? Refiro-me especificamente a culturas que foram excluídas, subordinadas e marginalizadas no processo de dominação colonial [8].

O maior equívoco da filosofia ocidental tem sido considerar o homem como um corpo MAIS uma mente, e separar o que sentimos do que somos. O conhecimento tem focalizado CORPO e MENTE, muitas vezes privilegiando um sobre o outro.

PENSO, LOGO EXISTO?

NÃO.

EXISTO PORQUE RESPIRO, BEBO, COMO, EXCRETO

INTUO, CHORO E RIO, e PENSO.

E faço tudo isso diferentemente das demais espécies vivas porque sou ao mesmo tempo sensorial, intuitivo, emocional e racional.

A proposta da transdisciplinaridade procura responder o "como?" e o "por quê?" dessas diferenças. Outras maneiras de propor a transdisciplinaridade vem surgindo de muitas áreas do conhecimento. Ganham visibilidade e são por muitos trabalhadas a visão holística, a complexidade ou pensamento complexo, as teorias da consciência, as ciências da mente, a inteligência artificial e inúmeras outras propostas transdisciplinares.

Num excelente livro sobre o pensamento complexo, Humberto Marioti propõe cinco saberes, como constituindo a essência de uma outra maneira de estar no mundo:

saber ver;

saber esperar;

saber conversar;

saber amar;

saber abraçar.

Mariotti sintetiza, em duas frases, o que podemos fazer e qual a nossa meta:

"A mão estendida é o início do abraço, isto é, o ponto de partida para o pensamento complexo, o marco inaugural do longo processo de busca da espiritualidade. (...) Estou falando de algo que possa livrar-nos de um padrão de vida segundo o qual em muitos casos a palavra é separada do real, a justiça se preocupa menos com o sofrimento dos homens do que com a letra da lei, e esta, em muitos casos, busca verdades que pouco ou nada têm a ver com o cotidiano das pessoas." [9]

NOTAS

[1] Humberto Maturana e Francisco Varela: A Árvore do Conhecimento. As bases biológicas do entendimento humano, Editorial Psy II, Campinas, 1995.

[2] Utilizo pulsão num sentido mais abrangente que Freud e mesmo Adler. A controvérsia não me intimidou na apropriação do termo.1

[3] Particularmente prejudicial para a evolução da humanidade tem sido a maneira como o estabelecimento, o poder, expropriou as religiões derivadas do judaísmo e a ciência que delas resultou e criou mecanismos para desencorajar o surgimento de novas idéias. A academia, utilizando mecanismos brutais de marginalização e exclusão, tais como recusa a emprego, empecilho à publicação, bloqueio a facilidades de pesquisa, difusão de rumores e outras tantas estratégias para desencorajar o novo pensar. Há inúmeros exemplos desse tipo de ação. Ver o interessante estudo de Brian Martin: Strategies for Dissenting Scientists, Journal of Scientific Exploration, vol. 12, n°4, 1998; pp.605-616 e a bibliografia.

[4] Cérebro, mente, pensamento, inteligência, consciência são alguns dos termos usados para se escapar do dualismo corpo/mente. Ver o interessante livro do neurofisiologista William H. Calvin: How Brains Think. Evolving Intelligence, Then and Now, Basic Books, New York, 1996.

[5] Essa é, em essência, a explicação da evolução do conhecimento proposta por Karl Popper.

[6] Essa é a explicação dada por Thomas Kuhn sobre a evolução, que ele chama revolução, do conhecimento.

[7] Keith Devlin: Goodbye, Descartes. The End of Logic and the Search for a New Cosmology of the Mind, John Wiley & Sons, Inc., New York, 1997; p. 283.

[8] Essa é uma paráfrase de uma reflexão do antropólogo Gary Urton no seu importante livro The Social Life of Numbers. A Quechua Ontology of Numbers and Philosophy of Arithmetic, University of Texas Press, Austin, 1997.

[9] Humberto Mariotti: Complexidade e Desenvolvimento Humano, Editora Palas Athena, São Paulo, 1999.

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